Assassinatos em Pôr-do-Sol
II CAPÍTULO

Dr. Torrez de Mello, o Implacável
Pôr-do-Sol durante muitos anos teve apenas dois policiais e um velho delegado aposentado, que eram responsáveis pela segurança da cidade, evidentemente, nunca aconteceram ocorrências graves, eram sempre as mesmas, bebedeiras, ladrões de galinhas, de roupas no varal, de vez em quando alguns arrombamentos em casas ricas... Enfim, quase nunca tinha serviço para o velho delegado e os seus dois preguiçosos policiais.
Acontece que numa bela noite, Seu Justino Goulart foi dormir e nunca mais acordou, enfartou no sono. A cidade ficou alguns meses sem delegado até o último domingo, quando chegou a Pôr-do-Sol o Dr. Rodolfo Torres de Mello, o novo delegado, logo de início transferiu os dois policiais e chamou três de seu antigo regimento onde trabalhava.
Dr. Torres de Mello, como exigia ser chamado, era um homem rude, não freqüenta igreja era de pouca conversa e de pouquíssimos amigos. Nunca cumprimentava ninguém, sua expressão era sempre fechada, um homem nada sociável. Era casado com D. Regiane com qual teve dois filhos, Daniel de dezoito anos e Marcos Antônio de vinte e três.
A preferência do pai sempre foi clara, e esta pertence a Marcos Antônio, a vontade do pai é que ele seja juiz, e é justamente o que o rapaz quer, porém, o filho mais novo rejeitou veemente, entrar no exercito e preferiu ser artista, isto causou grande fúria no delegado que chegou a bater no filho, mas Daniel tem personalidade forte, mesmo pressionado pelo pai não abandonou a idéia de ser um grande artista plástico.
Dona Regiane Torres de Mello é o oposto do marido, uma mulher jovem, com lindos cabelos castanhos, e um corpo invejado por muitas mulheres da sua idade, muito piedosa, dedicada ao marido aos filhos e as causas sociais, no passado adorava promover campanhas em prol dos mais necessitados. Isso já foi motivo de muitas brigas, hoje a pedido do seu marido ela não se envolve mais diretamente nesses movimentos, mas sempre que pode contribui com o pouco que tem, por ter passado muita fome e necessidades básicas para se viver, hoje o que ela pode fazer por alguém, D. Regiane faz.
Assim que chegou a Pôr-do-Sol, foi procurar o padre da paróquia, ficou encantada com a pessoa do Pe. Roque, o vigário sabendo que a nova moradora, tinha boa vontade em ajudar os pobres, pediu então que freqüentasse as reuniões dos Vicentinos, explicou pacientemente, o que fazem e a função importantíssima que tem dentro da Igreja católica, D. Regiane foi a uma das reuniões mais não quis se tornar membro da Sociedade, seu marido jamais permitiria, contudo, ela iria doar uma significativa quantia em dinheiro mensal a eles.
Nesta reunião, foi muito bem acolhida, por todos, em especial a D. Jovelina dos Andes a presidente, foi quem fez um panorama parcial dos pobres de Pô-do-Sol, que não são muitos, mas, sempre tinham idosos, crianças, deficientes e tantas outras pessoas, que iriam se beneficiar muito com a ajuda que estava disponibilizando para a sociedade.
D. Regiane ficou muito feliz em estar sendo útil e fazendo alguma coisa pela simpática cidadezinha. Após ter feito uma visita beneficente com D. Jove foram tomar café na casa da simpática senhora. Eis o inicio de uma grande amizade.
No caminho, D. Jove foi mostrando a cidade à nova moradora, passaram pela prefeitura um imenso prédio para Pôr-do-Sol, mais a adiante varrendo a frente do mercado estava D. Ana Ferreira, foram apresentadas. Ao longe D. Jove mostrava os hospitais, alguns em construção outros em pleno funcionamento, disse a nova moradora o quanto isso causou de protesto, mais, nada adiantou. Logo pegaram uma rua, um tanto quanto estreita, sem asfalto, esgoto e iluminação, ao final da rua D. Jove disse sorrindo:
- Eis minha humilde casa.
Tinha razão era uma casa muito simples, sem luxo algum, na cozinha onde foi introduzida havia apenas um armário vermelho uma pia e um fogão da mesma cor, uma mesa com quatro cadeiras e no canto um pote de barro muito antigo com uma folhagem em cima, sua nova amiga era muito pobre, bem diferente das que deixou, em Florestal.
- A Sra. Aceita um cafezinho. – perguntou com uma garrafa térmica de cor azul desgastada nas mãos.
- Sim, por favor – bebeu café, acompanhada com bolinhos de chuva, que segunda D. Regiane, nunca tinha comido bolinhos iguais a estes – que delicia D. Jove depois eu quero a receita, é muito bom que macio?
- Ah! Minha filha. Tem receita não, faço tudo de cabeça – disse toda faceira com os elogios da visitante.
- Então, se me convidar qualquer dia desses venho fazer junto com a Sra., assim eu vendo vou aprender, que tal? – disse levando um bolinho a boca.
- Combinado – riram as duas.
Limpando os olhos marejados pelos risos, D. jove perguntou – o que esta achando de Pôr-do-Sol?
- Magnífica, estou amando esta cidade, muito tranqüila, sossegada e esse clima fresco então, nossa me faz muito bem.
- Pra mim também. Mora aqui desde que me casei e olha que isso já faz mais de quarenta anos, jamais sai daqui, nesta cidade a uma força divina que me revigora todos os dias, basta eu olhar para pôr do sol.
- Como? – perguntou D. Regiane
- Existe uma lenda muito antiga aqui minha filha, se todos os dias você contemplar o pôr do sol, todas as suas angústias, tristezas, decepções e até doenças, vão embora, muitos dizem que essa luz é mágica – disse com um ar de seriedade na voz.
- Que interessante D. jove, preciso contemplar esse pôr do sol.
- Você verá o que eu digo é verdade. Mas filha, diga como era na sua antiga cidade?
- D. Jove a Senhora nem imagina – disse como se estivesse com uma amiga que conhecia há anos – é um inferno, Deus me perdoe da palavra – disse se benzendo – é uma loucura, ninguém conhece ninguém, é uma cidade perigosa... – derrepente seus olhos virão um quadro de uma moça muito bonita na parede da sala - é um barulho ensurdecedor o dia todo, a noite toda, a madrugada toda, é um horror.
- Nossa! Então Pôr-do-Sol é um paraíso?
- D. Jove aqui é o céu na terra. – olhando novamente o quadro – quem é aquela moça? – disse apontando para o imenso quadro.
- Minha filha – disse levantando-se e caminhando até a sala, pegou cuidadosamente o quadro da parede e trouxe até a visitante– aqui, minha única filha – estuda psicologia seu sonho desde o colegial.
- Nossa essa faculdade é caríssima, ela tem bolsa de estudos?
- Sim. Se não tivesse, não poderia estudar, mesmo assim mandamos mensalmente uma acerta quantia pra ela, têm hospedagem, comida, livros... Sabe a faculdade é de graça, mas, existem tantos custos a mais. – disse balançando a cabeça negativamente.
- Sei D. jove, meu filho mais velho faz direito, ele almeja ser juiz, só eu sei o quanto gastamos com ele por mês – disse D. Regiane entregando o quadro a D. Jove.
Nisso alguém lá do fundo gritava, pelo nome de D. Jove?
- Desculpe é meu marido, um minutinho só, melhor vem comigo venha ver nossa horta, gosta de alface e couve?
- Adoramos, todos lá em casa gostam.
- Ótimo, vou lhe dar um pouco. – completou pegando uma sacolinha de mercado.
Chegando ao quintal da velha casa, D. Regiane se deparou com uma imensa horta, onde podiam ver a cor verde de vários tons, e bem lá no meio desse verde estava em pé, todo sujo e suado, Seu Ricardo dos Andes um senhor de cabelos e barbas brancas feito algodão, pequenos olhos verdes e muito vivos, um rosto bondoso e paternal, “se existe papai Noel agora o encontrei”, pensou D. Regiane enquanto caminhava pela horta na direção de Seu Ricardo. Quando se aproximou ele tirou o chapéu e a cumprimentou.
- Me desculpe senhora, pensei que não tinha visita em casa.
- Essa é D. Regiane esposa do novo delegado e benfeitora da nossa igreja – disse D. Jove segurando o braço da visitante.
- Que bom, muito prazer. Meu nome é Ricardo, só não estendo a mão, porque esta toda suja – riu gostosamente.
D. Jove com um sacola colheu alface, couve e almeirão para a visita que ficou contentíssima e encantada com o casal de velhinhos.
Continua...