ASSASSINATOS EM PÔR-DO-SOL
III CAPÍTULO

Era visível o Cansaço do Velho Sacerdote
Domingo dia sagrado para todos que professam a fé católica. Conseqüentemente, sagrado para os habitantes de Pôr-do-Sol. Por causa da frágil saúde do único padre da cidade, neste dia, é celebrada apenas uma missa, na parte da manhã.
Hoje, a igreja do Cristo Redentor restava muito bem ornamentada, com lírios e crisântemos brancos. Próximo ao sacrário dois exuberantes vasos de copos-de-leite, que roubava a sena, uma toalha branca com detalhes dourados e prata cobria os quase dois metros de altar. Próximo havia duas velas brancas com detalhes em vermelho carmesim em pedestais recém pintados.
Tudo novo para celebrar os 15 anos de falecimento do esposo de D. Ana Ferreira, uma grande bem feitora da paróquia. É visível que a caridosa senhora ajuda a igreja não por ter tanta fé, como demonstra, mas sim por desencargo de consciência, pois seu falecido marido era um católico fervoroso que amava a Santa Igreja. O único erro desse homem foi se casar com D. Ana Ferreira.
A velha beata vive da aparência, por isso, fez questão de comprar tudo novo, não economizou em nada. Foi o modo que achou de reparar os pecados do seu marido, no qual foi à verdadeira e única culpada.
Na primeira fileira, vestido com roupas dominicais, estava à família do falecido, no outro corredor, na segunda fileira estava à família Torrez de Mello, sem o Dr. Rodolfo.
Na ponta do banco trajando um lindo blazer preto, com calça da mesma cor, e camisa azul clara, estava Daniel ao seu lado, sua mãe com um lindo vestido social marrom escuro e seu irmão, vestido como se estivesse indo a uma audiência com Srº Juiz.
Da outra ponta Vinicius com roupas de esporte fino, camisa branca e calça de cor escura comprada especialmente para este dia, assim que o avistou deu um sinal com a mão, Daniel o retribuiu, “nossa como ele se veste bem!” - pensou olhando o rapaz - D. Ana Ferreira vendo isto perguntou:
- Conhece o filho do delegado? – disse falando baixinho ao ouvido do filho.
- Não. Bom! Conheço. Não sei. Vi ele apenas uma vez, ontem foi ao mercado, lá conversamos um pouco, eu o achei muito simpático – disse no mesmo tom de voz baixa.
- Ouvi falar, que o pai dele não acredita em Deus.
- Mãe? – repreendeu o filho
A igreja do Cristo Redentor, não era muito grande, digamos que sua lotação máxima seria pouco mais de 500 pessoas, e hoje praticamente todos esses lugares já estavam completos, isso deixou D. Ana Ferreira muito contente, pois havia gasto muito com os enfeites da igreja, era importantíssimo que muitos comparecessem para contemplar o que foi feito.
- Olha filho a igreja cheia, que bom seu pai deve estar adorando. – disse com um largo sorriso, olhando para os fundos e os lados.
- Mãe tenho que ir ao banheiro – anunciou Fernanda, que até então estava calada ao lado da mãe.
- Banheiro? Que isso menina, falta menos de cinco minutos para começar a missa, não vai não.
- Mãe preciso trocar o absorvente – disse com uma certa arrogância na voz.
- Que isso menina, olha o respeito na casa de Deus, vai logo, vai – Fernanda foi - você viu isso filho, que menina, o meu Cristo Redentor me ajude.
Fernanda não foi ao banheiro. Tinha um encontro com Clodoaldo, o empregado de sua mãe.
- Puxa você demorou – disse Clodoaldo de olho no relógio.
- Te encontro hoje no parque do lago próximo as cachoeiras, às 15 horas, agora tenho que ir. – disse apressadamente.
- Que isso gata me da um beijinho – disse Clodoaldo, agarrando a moça pela cintura e puxando-a para perto de si.
- Ta bom, me solta Aldo – disse Fernanda, empurrando o rapaz – te vejo lá, até mais – se despediu, voltando correndo para a igreja.
- Com certeza estarei lá, gostosa – disse Aldo rindo sedutoramente.
Fernanda Baldochi voltou correndo para igreja, quando se sentou ao lado da mãe, o belíssimo som harmonioso do imenso órgão de 21 tubos alemão da marca Johannus, se fez ouvir, por toda a igreja.
O órgão de tubos, desde sempre, nos provoca para o encontro, a harmonia e o diálogo entre o divino e o humano, o transcendente e o imanente, a fé e a cultura, a Igreja e o Estado, contribuindo para a aproximação dos homens independentemente de todas as diferenças, que pode haver. Com toda certeza, se no céu tiver música, é esse esplêndido instrumento medieval, que os anjos iram tocar.
Daniel que era sensível a música ficou extasiado com aquele som magnânimo e poderoso, pela primeira vez em sua vida sentiu a presença dos anjos de Deus.
Ao fundo acompanhado com oito coroinhas, vinha padre Roque, com uma túnica branca como a neve, mas o que mais se destacava era a casula dourada, que vestia, na frente estampada a imagem do Cristo Rei, atrás a imagem de Nossa Senhora Rainha, as coroas foram todas bordadas com fio de ouro pelas freiras carmelitas descalças, que o presentearam na ocasião dos seus 50 anos de sacerdócio.
Continua...




